Entre exames e esperança: o que ninguém conta sobre tentar engravidar

Por Dr. Matheus Roque, especialista em reprodução assistida do Grupo Huntington

 

Nem tudo na medicina se resume a números, protocolos ou estatísticas, especialmente quando falamos de fertilidade. Para quem vive essa jornada, existe algo que sustenta quando os exames se acumulam e as respostas demoram a chegar: a esperança.

 

Durante as consultas, escuto histórias de mulheres e casais que já tentaram de tudo. Pessoas que chegam cansadas, frustradas, muitas vezes com a sensação de que o próprio corpo falhou. Dentre as diversas perguntas médicas, as que mais ocorrem são “será que não é pra ser?” ou “será que vai mesmo acontecer?”.

 

Em todos esses anos de experiência posso dizer que a ciência avançou muito. Hoje, conseguimos compreender melhor o funcionamento do corpo, acompanhar cada etapa do processo reprodutivo, personalizar tratamentos e ampliar as chances de sucesso, inclusive com a tecnologia.

 

Nos últimos anos, a medicina reprodutiva passou por uma transformação importante, impulsionada por inovação e tecnologia. Recursos como incubadoras com monitoramento contínuo, conhecidas como time lapse, permitem acompanhar o desenvolvimento dos embriões sem interferir em seu ambiente, respeitando cada detalhe do processo natural. A inteligência artificial passou a apoiar a análise embrionária, ajudando médicos a identificar padrões e tomar decisões mais precisas e individualizadas. Esses avanços não eliminam a incerteza, mas ampliam as possibilidades e trazem mais segurança, cuidado e respeito ao tempo de cada corpo. Com os avanços tecnológicos e a individualização, atualmente conseguimos aproveitar muito melhor o potencial de cada paciente, minimizando fatores externos que impactam na formação do embrião e potencializando as chances de formarmos embriões mesmo em cenários mais desafiadores como a idade reprodutiva avançada e os quadros de baixa reserva e insuficiência ovariana.

 

Outro recurso que vem sendo muito utilizado também é a ovoadoação, que traz esperança para os casais e é indicado para mulheres que não produzem óvulos viáveis, como nos casos de baixa reserva ovariana, falência ovariana precoce, histórico de tratamentos oncológicos ou para aquelas que iniciaram o projeto reprodutivo em idade mais avançada.

 

No procedimento, óvulos doados de forma anônima são fertilizados em laboratório e o embrião é transferido para o útero da paciente, que vivencia integralmente a gestação. Por isso, a técnica tem sido escolhida por quem deseja engravidar e exercer a maternidade, com um vínculo construído ao longo da gravidez e do cuidado diário, independentemente da genética.

 

Porém, ainda assim, a fertilidade segue sendo um território onde o controle absoluto não existe. Talvez nunca exista. É justamente nesse espaço que a fé encontra a ciência. Não como forças opostas, mas como dimensões que se complementam.

 

A fé não substitui o tratamento, obviamente, assim como não dispensa exames, protocolos ou decisões médicas responsáveis. Mas ela sustenta emocionalmente quem está no meio do caminho; ela ajuda a atravessar o tempo da espera, a lidar com resultados inesperados, a seguir em frente quando o cansaço chega antes da resposta.

 

Vejo, todos os dias, pacientes que conciliam consultas com orações, exames com esperança, procedimentos com silêncio interior. Não importa a religião ou a crença, mas reconhecer que o desejo de ter um filho toca algo muito profundo, que vai além do corpo.

 

Planejar a fertilidade, buscar ajuda médica e compreender os limites e as possibilidades do próprio corpo não diminui a fé. Para muitas pessoas, cuidar da saúde reprodutiva é também um ato de confiança no futuro. É dizer a si mesmo que esse sonho merece atenção, cuidado e presença.

 

Ter filhos nunca foi apenas uma questão biológica, trata-se de um projeto de vida carregado de expectativas, medos e sonhos. Um projeto que exige informação, acolhimento e, muitas vezes, coragem para continuar tentando.

 

Na minha percepção, a ciência oferece caminhos e a fé dá sentido à caminhada. Quando essas duas dimensões caminham juntas, a jornada deixa de ser apenas técnica e se torna profundamente humana. Mesmo quando o resultado não é imediato, algo se transforma e cresce a confiança, o cuidado e a esperança de que a vida encontre o seu tempo.

NOTÍCIAS
MAIS LIDAS

Menino nasceu saudável, depois que exame genético avançado identificou potencial em embrião descartado por todos os protocolos…
Expansão acelerada da reprodução assistida impulsiona corrida por tecnologias de IA e abre nova frente de negócios…
Iniciativa reúne entidades médicas, lideranças parlamentares e sociedade civil para ampliar o diálogo sobre fertilidade, saúde reprodutiva…
Entenda o que é e como funciona a ovodoação, técnica que amplia a chances d gravidez, especialmente…

CADASTRE-SE PARA RECEBER NOSSA NEWSLETTER E REVISTAS