Brasileira coordena consórcio europeu que quer desvendar a “caixa-preta” da gravidez

Aline Lorenzon, gerente de P&D do Grupo Huntington, participa do IMPLANTEU, rede internacional financiada pela União Europeia para investigar a implantação embrionária

São Paulo, abril de 2026 – A brasileira Aline Lorenzon, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do Grupo Huntington e coordenadora científica do Eugin Group acaba de se tornar a coordenadora científica IMPLANTEU, consórcio financiado pelo programa europeu Horizon Europe que reúne centros de excelência em reprodução assistida, bioengenharia e inteligência artificial para investigar a implantação embrionária, etapa em que o embrião se fixa ao útero e a gravidez de fato começa, também conhecido como um dos maiores mistérios da medicina reprodutiva.

Segundo Lorenzon, a implantação embrionária ainda é considerada uma “caixa-preta” da ciência. “Esse é o momento em que o embrião se comunica com o útero pela primeira vez e, além de extremamente crítico, é praticamente invisível. Nós vemos o antes, o embrião no laboratório, e o depois, o teste de gravidez ou o ultrassom. Mas o encontro entre embrião e endométrio ainda é, em grande parte, inferido, não observado”, explica.

A dificuldade se deve ao fato de que esse processo ocorre dentro do útero, em estruturas microscópicas, e não pode ser observado diretamente em humanos por limitações técnicas e éticas.

Do “tentativa e erro” à medicina de precisão reprodutiva

Compreender melhor essa fase inicial da gravidez pode transformar a prática clínica da fertilidade. Hoje, muitos casais passam por ciclos de fertilização in vitro bem-sucedidos em laboratório, com embriões de boa qualidade, mas sem sucesso na implantação no útero e, muitas vezes, sem respostas claras. “Quando não entendemos bem a implantação, ficamos com explicações vagas, como baixa receptividade ou causas desconhecidas. Para pacientes e casais, isso se traduz em frustração, medo de tentar novamente e desgaste emocional e financeiro”, afirma Lorenzon.

Avançar nesse conhecimento pode permitir uma abordagem mais personalizada. “Se entendermos melhor como o embrião se comunica com o endométrio, poderemos identificar ciclos com menor chance de sucesso, personalizar o preparo do útero e propor tratamentos mais eficazes para falhas de implantação e abortos precoces”, diz.

Por que a ciência só consegue estudar isso agora

O projeto surge em um momento em que diferentes avanços tecnológicos finalmente convergiram. Nos últimos anos, três áreas evoluíram de forma decisiva, modelos biológicos avançados, tecnologias “ômicas” e inteligência artificial. “Hoje temos organóides, modelos tridimensionais de endométrio e placenta e tecnologias que analisam milhares de genes ao mesmo tempo em células individuais. Combinadas à inteligência artificial, essas ferramentas permitem identificar padrões que o olho humano não consegue ver”, explica Lorenzon. Essa integração permite estudar a implantação em laboratório com um nível de detalhe que até pouco tempo atrás era impossível.

Uma rede internacional de ciência e formação

Mais do que um projeto de pesquisa isolado, o IMPLANTEU foi estruturado como uma rede científica e educacional internacional. A iniciativa reúne universidades, centros de pesquisa, clínicas de fertilidade e especialistas em bioengenharia e ciência de dados para criar novas ferramentas de estudo da implantação embrionária.

Outro objetivo central é formar a próxima geração de especialistas, o consórcio financiará 13 doutorandos internacionais que atuarão em diferentes países e disciplinas.

“O projeto foi desenhado para formar cientistas que transitam entre laboratório, clínica e análise de dados. A infertilidade é um desafio complexo e precisamos de profissionais capazes de integrar biologia, tecnologia e compreensão do impacto social da fertilidade”, afirma.

Impacto na saúde e na demografia

A iniciativa também responde a um desafio crescente na Europa, o aumento da infertilidade e a queda nas taxas de natalidade. Para a Comissão Europeia, investir na compreensão da implantação embrionária significa avançar tanto no conhecimento científico quanto na formação de profissionais preparados para enfrentar esse cenário.

“A infertilidade e a redução das taxas de natalidade têm impacto direto em saúde pública e bem-estar social. Projetos como o IMPLANTEU ajudam a avançar a ciência e, ao mesmo tempo, formar pesquisadores altamente qualificados para o futuro”, diz Lorenzon.

Os primeiros resultados do projeto podem começar a influenciar a prática clínica nos próximos anos. “Alguns achados podem gerar hipóteses e ajustes de conduta em três a cinco anos, como novos marcadores moleculares ou parâmetros de imagem que ajudem na decisão clínica. Para mudanças mais amplas nas diretrizes, falamos em cinco a dez anos”, explica.

A expectativa, porém, é acelerar a transferência de conhecimento para a prática médica. “O IMPLANTEU já nasce conectado a clínicas de reprodução assistida. Isso aumenta muito a chance de que os resultados não fiquem apenas no meio acadêmico, mas cheguem mais rapidamente aos pacientes”, esclarece.

O futuro da fertilidade

Se o consórcio alcançar seus objetivos, a forma de falar sobre fertilidade pode mudar profundamente na próxima década. “Eu imagino uma medicina de precisão reprodutiva. Em vez de simplesmente tentar e ver o que acontece, podemos estratificar o risco de falha de implantação, escolher o melhor momento para cada paciente e integrar informações moleculares, de imagem e de histórico clínico”, projeta Lorenzon. “Talvez, daqui a dez anos, falar de fertilidade signifique falar de algoritmos de apoio à decisão, modelos personalizados do endométrio e, espero, menos angústia e frustração em torno dos tratamentos de infertilidade”, conclui.

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