Dia Mundial da Saúde Sexual chama atenção para direitos das mulheres

Data reforça importância da informação e do cuidado integral diante de desigualdades sociais; Inserções de DIU cresceram 44% em um ano, mas especialista do CEJAM alerta para barreiras sociais e culturais que persistem.

 

A saúde sexual das mulheres brasileiras ainda é marcada por contrastes. Se, de um lado, os dados recentes indicam avanços na prevenção e no acesso a métodos contraceptivos de longa duração, de outro, desigualdades sociais e barreiras culturais continuam a restringir escolhas e comprometer direitos.

O dia 4 de setembro, instituído como o Dia Mundial da Saúde Sexual pela World Association for Sexual Health (WAS), em 2010, tem como objetivo ampliar a visibilidade do tema em escala global. A data se consolidou como um marco para promover debates públicos, mobilizar profissionais de saúde, educadores e gestores, além de estimular campanhas voltadas à garantia dos direitos sexuais e reprodutivos. No Brasil, o 4 de setembro vem ganhando cada vez mais espaço no calendário da saúde, servindo como ponto de partida para reflexões sobre educação sexual, prevenção de ISTs e fortalecimento de políticas públicas que assegurem às mulheres o acesso a um cuidado integral e inclusivo.

O Ministério da Saúde registrou, em 2023, aumento de 4,5% nos casos de HIV em relação ao ano anterior, resultado atribuído tanto à expansão da testagem quanto à baixa adesão ao preservativo. A sífilis gestacional permanece como desafio, com mais de 324 mil casos notificados entre 2019 e 2023. Entre adolescentes, houve queda no número de nascidos vivos de mães de 10 a 14 anos, que somaram 13.939 em 2023, mas a incidência segue maior entre jovens negras e de baixa renda, revelando desigualdades.

É nesse cenário que profissionais da atenção primária assumem protagonismo. Gabrielle Ferreira, enfermeira da UBS Jardim Guarujá, gerenciada pelo CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP), afirma que o debate público é parte da mudança. “Ter um dia mundial dedicado à saúde sexual é fundamental porque cria um espaço legítimo para o diálogo, a conscientização e a promoção de direitos. Falar de saúde sexual é falar de qualidade de vida, direitos sexuais e reprodutivos, e respeito à diversidade”, diz.

A enfermeira lembra que a falta de educação sexual estruturada nas escolas impacta diretamente a vida das jovens. “A desinformação sobre contraceptivos, ISTs e direitos reprodutivos ainda é uma realidade, sobretudo entre adolescentes, pessoas de baixa renda e a população LGBTQIA+. Isso se traduz em gravidez precoce e em riscos evitáveis”, enfatiza.

Na outra ponta, políticas públicas recentes vêm ampliando o leque de escolhas. Entre 2022 e 2023, as inserções de DIU cresceram 44% na rede pública de saúde após a liberação para que enfermeiras e enfermeiros realizem o procedimento. E em julho de 2025, o SUS incorporou um novo implante subdérmico de longa duração, considerado uma das estratégias mais eficazes para reduzir gestações não planejadas.

Apesar dos avanços, fatores sociais e culturais ainda limitam o cuidado. Tabus em torno da sexualidade, julgamentos morais e a resistência masculina em participar do planejamento reprodutivo criam barreiras. “Adolescentes sentem vergonha de buscar ajuda, pessoas LGBTQIA+ enfrentam discriminação e os idosos são invisibilizados, como se a sexualidade terminasse com a velhice”, observa.

Para superar essas lacunas, iniciativas comunitárias e coletivos locais têm atuado lado a lado com as unidades básicas, criando vínculos de confiança e linguagem mais próxima da realidade de cada território. “Grupos de apoio e lideranças comunitárias conseguem complementar o trabalho dos serviços de saúde. Quando o cuidado chega de forma acessível e respeitosa, o impacto é imediato”, avalia a enfermeira.

Entre avanços e desafios, um ponto é consenso: a saúde sexual feminina só se fortalece com informação, autonomia e cuidado integral. Como resume Gabrielle: “A atenção primária tem papel protagonista justamente pela proximidade com a comunidade e pelo vínculo construído com os usuários”.

Linha de Cuidado da Mulher no SUS

A Linha de Cuidados de Saúde da Mulher, implementada pelo CEJAM em parceria com a SMS-SP, foi criada para organizar e monitorar a jornada das pacientes no sistema público e garantir um atendimento contínuo em diferentes fases da vida. O modelo conecta a atenção primária, os serviços de especialidade e a rede hospitalar, de modo que cada mulher receba o cuidado necessário e mantenha vínculo com a UBS de referência. “O maior diferencial é colocar a atenção primária como sentinela do cuidado”, resume James Souza, responsável regional da linha de cuidados no CEJAM.

Na prática, o trabalho envolve desde consultas individuais e grupos de planejamento familiar até o monitoramento de exames como papanicolau e mamografia. Quando há necessidade de apoio diagnóstico ou tratamento especializado, as pacientes são encaminhadas para serviços secundários e, em casos de maior complexidade, para a rede hospitalar, sempre com contrarreferência para que a unidade de origem acompanhe cada etapa. Para garantir integralidade, a linha utiliza prontuário eletrônico, painéis de monitoramento e fluxos de encaminhamento detalhados, evitando que a usuária se perca na rede.

Os resultados já começam a aparecer. James destaca que o acompanhamento próximo tem aumentado a procura por exames preventivos e fortalecido o planejamento reprodutivo. “Percebemos um crescimento nas gestações planejadas e maior adesão aos exames de rastreio, o que impacta diretamente no diagnóstico precoce de câncer de colo de útero e de mama”, afirma. O objetivo, segundo ele, é ampliar esses avanços. “Queremos garantir que cada mulher receba cuidado contínuo e integral, fortalecendo a saúde sexual e reprodutiva e favorecendo diagnósticos mais precoces.”

 

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