Um mercado em ebulição: Brasil entra na “década de ouro” da reprodução assistida

Por Felipe Nabuco @revistaevolution

Projeções de especialistas apontam que os ciclos de fertilização in vitro, realizados anualmente, irão triplicar até 2030. Entre as explicações para este cenário está o crescente número de pessoas inférteis, o surgimento de novas clínicas e especialistas no mercado, além da conscientização de novos perfis familiares sobre as técnicas disponíveis de fertilização

Estudar, viajar, crescer profissionalmente e alcançar a tão sonhada estabilidade financeira. As mudanças de prioridades, impostas pelas transformações sociais, têm feito a maioria dos casais postergar a decisão de casar e ter filhos. Esse também foi o roteiro escolhido por Tailce e Rafaella Parca. Servidoras públicas concursadas, após um tempo de namoro elas decidiram se casar e, há pouco mais de dois anos, procuraram por um especialista em reprodução assistida para concretizar um antigo sonho. “Quando nos conhecemos e começamos a namorar, ambas já tinham o desejo de ser mães. Com uma relação consolidada, procuramos os meios de efetivar o projeto, já que, para um casal homoafetivo, o caminho seria mesmo por fertilização”, explica Tailce.

Cientes de que o fator idade é determinante para o sucesso da gestação, elas logo passaram a pesquisar sobre o assunto na internet e, em seguida, buscaram orientações com um especialista em uma clínica recomendada por amigos. “Deu tudo certo e começamos o tratamento 1, para coletar os óvulos da Rafa e gestar em mim. Conseguimos, ao final, apenas um embrião em D5 (blastocisto). Não fizemos a biópsia, pois queríamos fazer a implantação a fresco”, recorda Tailce. Elas tiveram sucesso já na primeira tentativa de fertilização in vitro e engravidaram da Taís.

Até poucos anos atrás, o procedimento realizado por Rafaella e Tailce estava longe de ser uma realidade entre casais homoafetivos. A rápida evolução das técnicas de reprodução assistida tem impactado na formatação de novos arranjos familiares, possibilitando não somente a ampliação de ciclos de reprodução entre esse perfil de famílias como, também, a outros inúmeros, a exemplo das famílias monoparentais, muito comum entre mães que optam pelo congelamento de óvulos.

Essa crescente procura de novos públicos, que configura uma mudança comportamental dos tempos atuais, está entre as explicações que podem fazer do Brasil, já nesta próxima década, uma vitrine mundial na promoção de técnicas assistidas de reprodução humana.

Projeções obtidas por especialistas, mediante análises de pesquisas, informações cruzadas e dados estratégicos do mercado do setor, apontam para um cenário de crescimento exponencial da atividade no país, que deverá fazer triplicar, nos próximos dez anos, o número de realização de ciclos de fertilização in vitro e de congelamento de óvulos; um horizonte promissor para um mercado que, hoje, realiza apenas 10% de toda a sua capacidade produtiva, conforme apontam estudos promovidos pela Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE).

De acordo com Erivelton Laureano, CEO da IVF Brazil e um dos maiores especialistas do mercado de reprodução humana no mundo, as estimativas apontam que a média de realização de ciclos de fertilização in vitro deverá saltar dos atuais 45 mil procedimentos/ano para 128 mil, em 2030. O que chama a atenção é que esta expansão já pode ser aferida por uma crescente procura de profissionais por especialização na área, assim como pelo surgimento de um número cada vez maior de Centros de Reprodução Humana Assistida pelo país. De acordo com Laureano, hoje, apenas quatro estados da Federação ainda não contam com clínicas especializadas em reprodução assistida: Acre, Amapá, Rondônia e Roraima.

“No Brasil, cerca de 90% dos tratamentos de fertilização in vitro ainda estão concentrados em um mesmo perfil de público: casais heterossexuais, com idade acima dos 35 anos, que apresentam dificuldades de fertilização. Há, ainda, uma infinidade de perfis que podem ser alcançados pelas técnicas de reprodução assistida, a exemplo de mulheres mastectomizadas, pessoas que vivem com algum tipo de limitação física (cadeirantes), casais homoafetivos, pais que resolvem ter seus filhos de forma independente. Enfim, ainda há grupos que não se atentaram para as possibilidades hoje disponíveis”, explica o especialista.

As projeções animadoras sobre o iminente futuro do setor também se sustentam em vários indicadores de mercado e são corroboradas pelos próprios números da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). De acordo com o relatório mais recente do Sistema Nacional de Produção de Embriões (130 SisEmbrio), publicado em maio de 2020, ainda sem levar em consideração os efeitos da pandemia de Covid-19, o número de realização de ciclos de fertilização in vitro mais que dobrou na última década, saindo de 21.074 procedimentos, em 2012, para 44.705 ciclos, em 2019.

Já em relação ao número de congelamentos de embriões, o salto foi ainda mais significativo. Em 2012, os centros brasileiros realizaram o congelamento de 32.181 embriões. Em 2019, o Brasil ultrapassou a casa dos 100.380 óvulos congelados. O relatório também comprova a expansão de Centros de Reprodução Humana Assistida por todo o país. Atualmente, são 183 centros em funcionamento, devidamente equipados com laboratórios de manipulação embrionária. Em 1981, havia apenas 20. Em 2017, esse quantitativo já chegava a 175 centros. “As projeções mostram que, até 2030, deveremos ter algo em torno de 250 centros em funcionamento”, acrescenta Laureano.

Desafios Embora o Brasil já desponte atualmente como um dos países que mais realizam ciclos de fertilização in vitro na América Latina, o fato é que esse destaque está mais atrelado ao porte populacional do país do que propriamente ao seu empreendedorismo no segmento para promover tal liderança. “Somos o que mais faz porque, simplesmente, somos o que mais população tem. Ainda temos muito a evoluir”, reforça Laureano.

Mas, se a procura por procedimentos de reprodução assistida entre diferentes públicos cresceu, se o número de centros de reprodução por todo o país aumentou, assim como o número de profissionais no mercado, e se a população tem se conscientizado mais sobre as técnicas disponíveis, o que falta para que o setor possa, de fato, decolar nos próximos anos?

Especialistas são unânimes em apontar dois fatores como os principais desafios para a franca expansão da atividade no Brasil: a questão financeira e a falta de informação. Embora venha crescendo o número de pessoas que se informam diariamente sobre o tema, ainda é muito baixo o percentual de pacientes que iniciam o tratamento. Essa situação também está ligada à questão financeira: no Brasil, os planos de saúde não oferecem cobertura para procedimentos de reprodução assistida.

“Isso definitivamente pesa no orçamento. Era, inclusive, o nosso único medo inicial, do preço alto. Acreditamos que limita bastante a realização do sonho para algumas pessoas. Já em relação à falta de informações, o processo é complexo. E, para quem faz pela primeira vez, às vezes é difícil de entender detalhadamente o que está acontecendo e quais são os próximos passos, o que gera ansiedade”, destaca Tailce.

Para Laureano, ainda há mais dois aspectos que têm desafiado a expansão do segmento no Brasil: a falta de empreendedorismo e a baixa governança corporativa ou a ausência de mão de obra executiva no mercado. “O Brasil, com uma moeda desvalorizada em relação ao dólar e ao euro, pode se transformar em um grande mercado internacional de reprodução humana. Mas, para isso, algumas dificuldades elementares precisam ser superadas, e a questão do idioma é uma delas. As clínicas precisam investir mais no sistema de atendimento, com profissionais que dominem o inglês e que possam realizar esse atendimento a pessoas de outros países. Temos excelentes centros e profissionais que já são reconhecidos internacionalmente”, frisa o especialista. “Também é preciso investir mais em ações de marketing como forma de disseminar a informação, desmistificar o tema e sensibilizar esta vasta e potencial clientela”, acrescenta.

Graças à contínua evolução científica da medicina, para milhões de pessoas mundo afora a realização do sonho de gerar o próprio filho nunca foi tão possível quanto agora. O Brasil tem, à sua frente, a grande oportunidade de se tornar o celeiro mundial da reprodução humana assistida, e, com isso, atrair potenciais investidores, bem como realizar o sonho de milhões de pessoas que querem, um dia, gerar seus próprios filhos.

“Acreditamos que aquelas pessoas que desejam ter filhos devem tentar de todas as formas possíveis. Na verdade, nunca haverá um momento certo, pois sempre tem aquele trabalho ou aquela viagem que queríamos fazer antes, mas o relógio biológico da mulher realmente não espera. E mais: depois poderá realizar os demais sonhos, com a companhia de uma companheirinha ou de um companheirinho. Os custos são altos, o processo é estressante, mas vale a pena, pois você poderá terminar com um neném nos braços”, conclui Tailce.

Crédito Imagem – Tailce e Rafaella Parca com a filha Taís

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