Cada vez mais mulheres adiam o sonho de ser mãe, mas o que realmente é possível depois dos 45 e quais são os riscos envolvidos?
Margareth Mata voltou a viver algo que parecia pertencer a outra fase da vida: noites interrompidas e o cheiro inconfundível de bebê pela casa. Os três filhos já eram adultos, a rotina estava mais silenciosa e o casal começava a experimentar uma nova liberdade. Ainda assim, dentro dela, a maternidade não parecia encerrada. “O desejo de ter mais um filho nunca foi completamente embora. Ele apenas ficou guardado, esperando o momento em que fosse impossível ignorá-lo”, afirma a funcionária pública, que vive no Espírito Santo.
Quando decidiu tentar novamente, Margareth sabia que não seria uma escolha simples. Sabia que envolveria conversas delicadas, avaliações médicas e, principalmente, coragem. “Meu marido achava que talvez não fosse o momento. Ele dizia que agora era a fase de aproveitar a vida a dois, já que os filhos já estavam criados. Mas, para mim, o sonho ainda estava vivo”, explica.
A gravidez aconteceu por meio da fertilização in vitro e transformou aquela etapa da família em algo inesperadamente intenso. E houve um detalhe que, para Margareth, tornou tudo ainda mais especial. “Antes de eu engravidar, minha mãe, que faleceu logo após o nascimento do meu bebê, sonhou com um menino de olhos azuis, exatamente como os do meu marido. Quando meu filho nasceu, com os olhos claros do pai, foi impossível não lembrar dela”, lembra Margareth.
Se por um lado a história emociona, por outro ela desperta curiosidade e questionamentos. Afinal, é mesmo possível engravidar depois dos 50? E quais são os limites do corpo feminino quando o desejo de maternar permanece?
Nos últimos anos, a maternidade tardia deixou de ser exceção isolada e passou a refletir uma transformação maior. Mulheres priorizam formação, carreira, estabilidade emocional, recomeçam relacionamentos, reorganizam planos. A decisão de ter filhos acontece mais tarde e, com isso, cresce também a busca por tratamentos de reprodução assistida.
Mas a medicina amplia possibilidades, não apaga os limites biológicos
Para a Dra. Thaís Domingues, especialista em reprodução humana da Huntington Medicina Reprodutiva, é fundamental que histórias inspiradoras venham acompanhadas de informação clara. “Quando aparecem casos na mídia, pode parecer que é fácil engravidar depois dos 50, mas não é. De três a cinco anos antes da menopausa a chance de engravidar naturalmente já é menor que 5%, e após os 45 essa probabilidade pode ser inferior a 1% com óvulos próprios”, esclarece.
Além da dificuldade de engravidar, aumentam os riscos de alterações cromossômicas, aborto espontâneo e complicações como pressão alta na gestação, diabetes gestacional e parto prematuro. Por isso, após os 43 anos, a fertilização in vitro costuma ser a principal indicação médica e, acima dos 45, é comum que o tratamento envolva óvulos doados. “Quando a paciente recebe um óvulo de uma mulher jovem, ela passa a ter a chance de gravidez daquela idade. Isso melhora as possibilidades, mas não elimina completamente os riscos relacionados à idade materna”, explica a Dra. Thaís.
Mesmo com acompanhamento especializado, cada caso precisa ser avaliado individualmente. No Brasil, a recomendação é que os tratamentos sejam realizados até os 50 anos, sempre com acompanhamento médico rigoroso.
Margareth sabe que sua história chama atenção. E sabe também que os olhares vêm acompanhados de suposições.
“Eu sabia que muita gente ia questionar, e isso acontece até hoje. Muitas vezes, quando estamos em lugares públicos, como no parque ou na praia, as pessoas ficam olhando, tentando entender se somos os avós da criança. Mas isso não interfere na minha escolha, não me importo. O que eu sei é que, se eu não tivesse tentado, ia carregar essa vontade para sempre”, revela.
Entre limites biológicos e avanços da ciência, a maternidade depois dos 50 continua sendo rara, exige acompanhamento e envolve riscos. Mas, para algumas mulheres, ela representa algo ainda maior: a possibilidade de não silenciar um desejo que resistiu ao tempo.