Mesmo atingindo uma em cada 10 mulheres no mundo, doença leva em média sete anos para ser identificada
A endometriose é uma doença que afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo uma das principais causas de infertilidade feminina. Ainda assim, o diagnóstico costuma atrasar cerca de sete anos. Durante o ‘Março Amarelo’, mês dedicado à saúde da mulher, a conscientização da endometriose baseada em ciência e o acesso a serviços especializados tornam-se ferramentas essenciais para reduzir esse intervalo.
Caracterizada por um processo inflamatório crônico, a endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio se desenvolve fora do útero, podendo atingir ovários, intestino, bexiga e outras estruturas pélvicas profundas. Entender a doença e manter um acompanhamento regular são medidas essenciais para preservar a fertilidade e recuperar qualidade de vida.
“A ciência avançou muito. Hoje sabemos que o tratamento vai muito além da cirurgia, envolvendo uma abordagem multidisciplinar que inclui dieta, fisioterapia e saúde mental. No dia a dia do cuidado, percebemos que quando a paciente tem acesso a uma equipe integrada e que dê a devida atenção ao seu problema, o controle da dor e a qualidade de vida melhoram de forma significativa”, afirma Dr. Marcos Tcherniakovsky, ginecologista e obstetra do Hospital e Maternidade Santa Joana.
Mitos e Verdades
1)A dor da endometriose é apenas “psicológica”.
MITO
Estudo da Universidade do Cairo demonstrou que a dor é física e impacta até a postura, aumentando o ângulo da cifose torácica. O mesmo estudo comprovou que exercícios supervisionados (oito semanas, três vezes por semana) reduziram a escala de dor de 4 (muito intensa) para 1 (leve).
2)Endometriose sempre causa câncer.
MITO
Embora mulheres com endometriose tenham um risco aumentado (cerca de 4x mais) de desenvolver câncer de ovário principalmente no período da pós-menopausa, o risco absoluto permanece muito baixo: apenas 9,9 em cada 10.000 mulheres com a condição desenvolverão a doença. É importante salientar que a endometriose é considerada uma doença extremamente benigna e diante do diagnóstico não há motivos para pânico.
3)A alimentação influência nos sintomas.
VERDADE
A adoção de uma dieta anti-inflamatória (rica em ômega-3, fibras e antioxidantes) ajuda a reduzir o processo inflamatório sistêmico e a aliviar as dores pélvicas crônicas.
4)A fisioterapia pélvica é apenas para o pós-operatório.
MITO
A fisioterapia é uma aliada constante. Ela atua na dessensibilização da dor, na melhora da função sexual e no relaxamento da musculatura pélvica, sendo essencial tanto no tratamento conservador quanto na reabilitação.
5) A doença pode afetar a mente.
VERDADE
A convivência com a dor crônica eleva significativamente os níveis de ansiedade e depressão, exigindo acompanhamento psicológico quando indicado.
6) Quando engravidar a endometriose desaparece
MITO
A gravidez pode aliviar temporariamente os sintomas, mas as lesões não desaparecem. Portanto engravidar não cura a doença.
7)A solução definitiva para endometriose é a retirado do útero
MITO
A retirada do útero (histerectomia) não garante a cura da endometriose. Em alguns casos, principalmente aqueles que tem alteração do útero com miomas ou adenomiose, pode ser um tratamento complementar, mas é importante sempre dar preferência a tratamentos conservadores.
“O diagnóstico avançou muito com exames como o ultrassom transvaginal e a ressonância magnética ambos com preparo intestinal, que permitem identificar até mesmo a endometriose infiltrativa profunda. No tratamento, a cirurgia, seja laparoscópica ou robótica, segue indicada apenas para casos de progressão ou dor persistente. Ainda assim, é importante lembrar que cerca de 50% a 70% das mulheres com endometriose conseguem engravidar espontaneamente ou com suporte médico, o que reforça a importância do acompanhamento adequado e contínuo com profissionais especializados”, conclui Dr. Marcos Tcherniakovsky.