Homens mais velhos que têm um bebê não são responsabilizados pela saúde do filho. Mas os riscos da gestação também aumentam com a idade deles

Olhares enviesados, críticas abertas ou veladas, preocupações legítimas ou apenas desaprovação: esses são alguns relatos de muitas pacientes que atendo diariamente em meu consultório e que decidiram ser mães pela primeira vez após os 40 anos.

Essas mulheres, em sua maioria, construíram uma vida exemplar: são excelentes profissionais, boas filhas e irmãs e, não raro, demoraram um tempo para encontrar um parceiro (ou parceira) no qual confiassem o suficiente para desejar formar uma família. Outras decidiram ser mães solo e têm todas as condições para desempenhar plenamente essa tarefa. Por que, então, são julgadas a todo momento?

O que acontece é que a gestação após os 35 anos é considerada pela OMS – Organização Mundial de Saúde uma gestação de risco. E a entidade não está errada: há, sim, maior probabilidade de acontecerem problemas com a mãe e o bebê nessa faixa etária materna, especialmente se a mãe estiver com a saúde prejudicada antes de engravidar, se ela não se preparar no ano anterior à gestação (sim, atualmente, desejamos que toda mulher se prepare por um ano antes de engravidar, é o chamado “one year pregnancy”) e se, durante a gestação, ela não praticar os cuidados necessários para que sua saúde se mantenha plena.

É claro que outras intercorrências podem se apresentar, como as síndromes de Down e Patau, por exemplo, que são mais frequentes em filhos de mulheres acima dos 40 anos e não são possíveis de prevenção – mas não significa que mulheres mais novas também não possam gerar crianças com tais síndromes. Os dados disponíveis no Brasil sobre o número de crianças com síndrome de Down nascidas nos últimos anos não são claros. Um dos mais confiáveis mostrou que, no Sudeste do país, a cada 10 mil crianças nascidas vivas, quatro eram portadoras da Síndrome e metade delas eram filhas de mães acima dos 35 anos.

Mas todas as mulheres acima dos 40 anos que engravidam terão problemas gestacionais?

Não. As mulheres estão cada vez mais saudáveis, bem-informadas e amparadas pela Medicina. É fundamental que se saiba que mulheres de qualquer idade que apresentam doenças preexistentes devem ser tratadas antes de engravidar. Uma mulher de 25 anos com obesidade ou hipercolesterolemia ou endometriose ou miomas ou Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) ou Síndrome Metabólica ou diabetes ou hipertensão ou problemas vasculares ou condições cardíacas ou doenças autoimunes ou trombofilias ou quantas doenças mais existirem deve ser tratada antes da concepção – até porque muitas dessas condições nem sequer permitirão que ela engravide.

Engravidando com algumas questões metabólicas ou cardiovasculares, por exemplo, ela poderá desenvolver a pré-eclâmpsia ou o diabetes gestacional, em qualquer idade. Acima dos 40 anos, claro, a situação poderá se apresentar com mais facilidade, porque a probabilidade de haver uma doença instalada é maior – fora que a qualidade de seus óvulos já não é a mesma da apresentada aos 20 anos.

Então, o consenso médico é que todas as mulheres se preparem para a gestação, façam o pré-natal, mantenham a dieta sob controle, pratiquem atividades físicas regulares e supervisionadas, tenham toda a suplementação adequada, cuidem do sono e da saúde mental e emocional e fiquem de olho nas condições intestinais. Com exames em dia, a gestação será tranquila, em qualquer idade.

Mas os problemas gestacionais causados pela idade são exclusivos da mãe? Por que quase ninguém fala do papel do pai nesse processo?

Mais do que falar do papel materno na gestação e do peso dos 40 anos (ou mais), quero observar que pouquíssimo se fala da responsabilidade dos pais acima dos 35-40 anos.

Os homens são capazes de gerar filhos durante toda a vida – obviamente, a fertilidade masculina também vai se reduzindo com o passar dos anos, mas eles conseguem ter filhos mesmo aos 70 anos ou mais.

Um estudo apresentado no encontro anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, em Viena, na Áustria, há alguns anos, mostrou que a qualidade dos espermatozoides diminui com o passar do tempo, especialmente a partir dos 51 anos.

Outros estudos internacionais também indicaram que bebês nascidos de pais mais velhos estão mais suscetíveis ao baixo peso ao nascer, parto prematuro e baixo índice de Apgar (teste que avalia cinco sinais em recém-nascidos – reflexos, cor da criança, frequência cardíaca, tônus muscular e esforço respiratório – em seus minutos iniciais de vida e indicará aos médicos quais serão as medidas clínicas necessárias a serem tomadas posteriormente).

Ainda fico espantada ao saber que há ginecologistas que não estimulam suas pacientes a orientar os parceiros a procurar um urologista quando o casal deseja engravidar, para realizar os exames necessários para a suplementação correta e os cuidados necessários para a concepção. Homens fumantes, que abusam do álcool, acima do peso ou obesos, diabéticos, hipertensos, com hipercolesterolemia, estressados também podem ter a fertilidade comprometida e interferir na saúde do bebê – vale lembrar, sempre, que 50% da carga genética de todos nós vêm do pai e os outros 50%, da mãe.

Mulheres acima dos 40 anos podem ter filhos, com responsabilidade e cuidados médicos. Homens, também. Mas está na hora de elas serem olhadas com mais empatia e eles, com mais cobrança.

Sobre a Dra. Mariana Rosario

Formada pela Faculdade de Medicina do ABC, em Santo André (SP), em 2006, a Dra. Mariana Rosario possui os títulos de especialista em Ginecologia, Obstetrícia e Mastologia pela AMB – Associação Médica Brasileira, e estágio em Mastologia pelo IEO – Instituto Europeu de Oncologia, de Milão, Itália, um dos mais renomados do mundo. É membro da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (SOGESP) e especialista em Longevidade pela ABMAE – Associação Brasileira de Medicina Antienvelhecimento. É médica cadastrada para trabalhar com implantes hormonais pela ELMECO, do professor Elcimar Coutinho, um dos maiores especialistas no assunto. É membro do corpo clínico do Hospital Albert Einstein.

Possui vasta experiência em Ginecologia, Obstetrícia e Mastologia, tanto em Clínica Médica como em Cirurgia Oncoplástica. Realiza cursos e workshops de Saúde da Mulher, bem como trabalhos voluntários de preparação de gestantes, orientação de adolescentes e prevenção de DST´s. Participou de inúmeros trabalhos ligados à saúde feminina nas mais variadas fases da vida e atua ativamente em programas que visam ao aprimoramento científico. Atualiza-se por meio da participação em cursos, seminários e congressos nacionais e internacionais e produz conteúdo científico para produções acadêmicas.

Dra. Mariana Rosario – Ginecologista, Obstetra e Mastologista. CRM- SP: 127087. RQE Masto: 42874. RQE GO: 71979.

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