Médico de reprodução humana comenta sobre as tecnologias utilizadas no Brasil, que prometem individualizar tratamentos e aumentar taxas de sucesso nos tratamentos
A medicina reprodutiva brasileira avança cada vez mais e ao longo dos anos vem implementando avanços tecnológicos como o uso de inteligências artificiais (IA) que prometem transformar a forma como embriões e óvulos são avaliados nos tratamentos de fertilização in vitro. O Dr. Matheus Roque, mestre e doutor em reprodução humana, explica como essas ferramentas estão mudando o cenário da reprodução assistida no país.
Timelapse e o monitoramento contínuo sem interrupções
O primeiro avanço está nas próprias incubadoras e a tecnologia de IA acoplada a elas. Um exemplo destas incubadoras é o Embryoscope, um embrioscópio, que utiliza a tecnologia time-lapse, que fotografa os embriões a cada 10 minutos durante todo o desenvolvimento registrando os tempos e momentos exatos das divisões celulares que ocorrem durante o desenvolvimento embrionário. “Esses embriões vão sendo fotografados ali a cada 10 minutos e isso tem um vídeo de todo o desenvolvimento embrionário possibilitando avaliações a qualquer momento do embrião sem a necessidade de retirá-lo da incubadora. E estas imagens embrionárias podem ser utilizadas por algoritmos de IA que auxiliam na avaliação dos embriões”, explica o Dr. Matheus Roque.
Além da tecnologia timelapse, estas incubadoras têm uma grande vantagem em relação às incubadoras convencionais, que é a estabilidade do ambiente. “Você consegue ter avaliações do embrião sem precisar retirar o embrião da incubadora, como se esse embrião estivesse na tuba uterina daquela mulher se desenvolvendo até que chegue no útero. Todo o desenvolvimento embrionário ocorre no ambiente mais estável possível, considerando por exemplo temperatura e pH dos meios de cultivo embrionário”, destaca o médico. Nas incubadoras tradicionais, o embriologista precisa retirar a placa de cultivo para fazer as avaliações, o que expõe os embriões a variações de temperatura e gases.
Avaliação morfocinética vai além da aparência
Com o registro contínuo do desenvolvimento, os médicos passaram a ter acesso a algo revolucionário: a morfocinética embrionária. “Não é só a morfologia, não é só a forma do embrião, mas a cinética, ou seja, todo o caminho que ele percorreu até chegar àquele estágio ali”, explica Dr. Matheus Roque.
O embrioscópio integra algoritmos de inteligência artificial que analisam todos os tempos de divisão celular e cada etapa do desenvolvimento. “Ao final do cultivo, a incubadora nos traz todo o desenvolvimento embrionário com os tempos desse desenvolvimento, estas informações são jogadas a um algoritmo desenvolvido com milhares de análises embrionária gerando uma classificação para cada embrião e isso auxilia a embriologista a escolher o embrião de melhor potencial”, afirma o médico. O sistema atribui notas de 0 a 10 aos embriões, criando um ranking baseado em seu potencial de implantação.
“Violet” traz avaliação personalizada para congelamento de óvulos
A inteligência artificial também está revolucionando o congelamento de óvulos. O Violet é uma ferramenta que individualiza as previsões de sucesso. “Normalmente, a gente tem o quê hoje? Quando a paciente vem fazer um congelamento de óvulos, falamos das chances no futuro, considerando a idade da mulher e o número de óvulos congelados. Se você teve 10 óvulos, esses 10 óvulos te dão tal percentual. Isso é baseado em estudos, mas é estudo do mundo inteiro e uma média geral destas pacientes incluídas nos estudos, sem uma individualização realmente”, contextualiza Dr. Matheus Roque.
O Violet vai além das estatísticas genéricas. “Todos os óvulos da paciente que foram coletados, que vão ser congelados, através da imagem desses óvulos, ele joga para o algoritmo dele, com milhares de imagens que eles têm, já sabendo depois que esses óvulos foram descongelados, foram utilizados lá pra frente, com o potencial de trazer um bebê no futuro”, explica o médico
A ferramenta considera as características individuais de cada paciente. “Essa inteligência artificial nos traz essa informação sobre os óvulos daquela paciente, aquela colheita de óvulos, aquela quantidade de óvulos, aquela mulher de tal idade, tais características da paciente, e aqueles óvulos como foram, qual que é o potencial daqueles óvulos em si”, detalha o médico. “Então, essa é uma estratégia para individualizar mais a questão de informação e resultado para as pacientes, quando pensamos no congelamento de óvulos, sendo uma ferramenta extra no adequado aconselhamento de cada paciente.”
Análise genética não invasiva
Apesar dos avanços, Dr. Matheus Roque esclarece que ainda há desafios pela frente. “Hoje as pesquisas têm o objetivo de evoluirmos cada vez mais na avaliação embrionária de maneira não-invasiva, usando os critérios de morfocinética, para que possamos, por exemplo, dizer as chances de cada embrião ser geneticamente normal”, afirma.
O objetivo é eliminar a necessidade de biópsia embrionária. “Então queremos conseguir ter uma análise do embrião de uma maneira não invasiva. Atualmente precisamos biopsiar o embrião, ou seja, retirar algumas células do embrião para que estas sejam enviadas para a análise genética”, explica o médico. No entanto, ele pondera: “ Porém, ainda não existe essa ferramenta que consiga substituir a biópsia embrionária para análise genética do embrião.”
Com mais de 15 anos de carreira, com dezenas de viagens internacionais para aulas e consultorias em clínicas de todo o mundo, Dr. Matheus Roque reforça que essas tecnologias representam a materialização de um princípio fundamental da medicina reprodutiva moderna. “Cada jornada reprodutiva é única. Nosso papel é traduzir a ciência para a realidade do paciente, oferecendo opções, taxas de sucesso e riscos de forma objetiva, sem perder o acolhimento”, finaliza o especialista.